E de repente ele agarrou as minhas pernas. Chapado. Fedendo. Em restos. Sua ação me paralisou, eu revirei os olhos e o xinguei mentalmente. O xinguei alto também. Ele era insistente, mas eu não era paga pra aturar seu show e seu amor de farmácia. Com a minha mochila ainda nas mãos, o pedi que me soltasse, xingando e tentando não gritar, eu odiava levantar a voz tanto quanto odiava gastar saliva pra ouvidos bêbados. Ele se levantou e por um momento achei que eu estava livre, mas aí seria fácil demais para uma filha da mãe como eu. Ele me abraçou, enterrando o rosto em meu ombro. Ele chorava. Puta merda. Ele chorava. Fiquei parada como se a qualquer momento algo fosse explodir. Eu fosse explodir. Pensei no que fazer. Dar tapinhas nas suas costas? Ou começar cantar uma música para acalmá-lo? Percebi que eu não me importava. Cada lágrima sua era apenas água salgada escorrendo dos olhos. O empurrei e ele foi parar na cama. Fiquei olhando. Ele era bonito, eu não negava. Beijava bem, eu já tinha lhe dito. E eu gostava do seu hálito de estrago, conseguia ser menos irritante que o meu. Seu rosto estava machado pelas lágrimas e ele me olhava também. Esperava uma resposta, mas eu já tinha dado. A mochila estava feita. Eu iria para o meu nada e ele ficaria no dele. Cansei, apenas cansei e essa possibilidade foi avisada de antemão. Mas ele não me deu só uma chance, me meu todas as suas chances, inclusive a de um dia ser feliz. Eu havia fodido com a sua vida. Eu sabia. Ele sabia. Seu choro sabia e a minha impaciência também. O mundo sabia e me condenava, eu pagaria assim que saísse por aquela porta. E por que eu simplesmente não ficava?
Eu não merecia me dar bem… E ele menos, por ter tentando.
" — o porquê dele ter se jogado do nono andar e eu do décimo, raquel p.“Você leu o que eu te mandei?”, ele perguntou desnecessariamente interessado.
“Sim. Umas dez vezes, talvez.”
“Por que?”
“Devo ter gostado.”
“Imaginei que sim…”
“Mas não se acostume.”
“Por que não?”
“Porque não.”
“Respostas reticentes…”
“São boas…”
“As suas são…”
“Obrigada!”
“Como sempre, mexem comigo.”
“Por isso são boas.”
“Quero entender como você me excita tanto…”
“Não queira, apenas aceite.”
“Não tem como não aceitar…”
“Você gosta, não é?”
“Sim… e imagino que você gosta disso também.”
“É a minha diversão!”
“Como você se diverte assim, exatamente?”
“Você se excita, eu me excito. Entre outras coisas…”
“Outras coisas entram como consequência da excitação?”
“Sim e não.”
“Então como?”
“Apenas sim e não.”
“Suas respostas…”
“… Vão fazer você me mandar para o inferno daqui a pouco.”
“Ou vão fazer com que eu queira fazer outras coisas com você daqui a pouco.”
Está vendo? Tenho você em minhas mãos, no molde e no tempo que eu quiser. E de mim, o que você tem? O que é seu de verdade? Apenas as minhas palavras planejadas? Apenas o que há na sua imaginação, quando se masturba ou tenta dormir?
Ontem você me disse que sou de impossibilidades extremas e coisas ocultas, que isso o instigada e que, ainda que queira entender os meus efeitos, evita pensar. Você quer me alcançar e eu gosto de vê-lo tentando, mas baby, você só alcançará o que eu permitir.
Não estou querendo seus sentimentos, assim como não encherei meus bolsos de coisas do tipo. Não estou querendo você e todas as besteiras que te compõe, essa tua música não tocará no meu rádio. Baby, te dou uma hora, quem sabe um dia, pra você me agarrar pelos quadris sujando o meu corpo com cada dedo seu, enquanto me deixa nua de qualquer pensamento que te xinga, te mata, te explode em pedaços vários. Seja meu filho da puta da manhã seguinte, meu porre sóbrio e o banho desejado pra te limpar da minha pele.
Está ouvindo? Meus pés estão esperando você vir me derrubar, minha saliva espera a hora de queimar a língua do teu beijo. Não diga nada, não pense e apenas faça. Você não gosta de se jogar? Estou aberta. Caia. Será o nosso desfecho de mais um desses adeus eternos.
" — raquel p.Um sexo impagável… E eu nem sabia o nome dela. Tentei descobrir, mas ela me disse que eram mais cem mangos, e a idade, mais cinquenta. Ela sabia o quanto era boa, era um sexo impagável por que praticamente valia mais do que eu tinha e a putinha fazia questão de reconhecer o valor do seu serviço. Não parecia ser menor de idade, devia está na faixa dos dezenove ou vinte, tinha uma tatuagem na coxa direita e outra nas costas.
Nua, ela se levantou desfilando para mim seus doidos cabelos castanhos meando nas costas. Minha vontade era pedir que ela voltasse a deitar e me deixasse desenhá-la, ela, daquele seu melhor jeito… Mas com a minha impressão de que ainda era cedo, pegou as suas roupas pelo chão e começou a se vestir, pondo primeiro a calcinha. Eu a observava e ria, e ela, percebendo a minha reação, me olhou com as grossas sobrancelhas levemente erguidas.
“Por que ainda usa uma calcinha?”, eu perguntei, de fato não tinha graça, mas era irônico. “É basicamente desnecessário se vai tirá-la umas cinco vezes por noite”.
“Tem homens que gostam dessa parte.”
“É. Eu gosto”, admiti, reconhecendo que era exatamente o que eu queria fazer.
“Então não reclame, my dear.”
“Não estou reclamando. Só queria que você ficasse.”.
“Não era você que estava quase me pedindo emprestado pra ter que me pagar?”
“Seria mais fácil se simplesmente quisesse sem a parte da grana.”
“É, seria. Mas não estou a fim.”, ela já estava na saia, tinha pressa e eu tinha poucos minutos.
“Nunca está?”
“Não”
“Por quê? Ninguém nunca foi interessante? Ou bom de cama o suficiente?”
“Exemplifique o que é ser interessante ou bom de cama.”
“Você. Você é interessante e boa de cama.”
“E você?”
“Eu? Você quem deveria dizer, não?”
“Estou perguntando a você, my dear. Se acha bom ou não?”
Aquela mulher estava zoando com a minha cara, mas vê-la toda vestida e colocando apenas as botas me fez querer responder qualquer merda, e eu respondi.
“É. Eu acho.”.
Ela fez silencio, mas havia um sorriso estranho nos lábios. Colocou o último par das botas e se levantou, pegou a bolsa e olhou, pelo o que parecia ser a última vez, para a minha cara.
“É. Você é.”
“E isso não basta pra que você fique?”
“Me custaria caro.”
“Eu não iria cobrar.”
Eu sorri. Ela também. Os seus dentes eram amarelados de cigarro.
“Se eu ficasse, seria pra sempre.”
Ainda ao eco da sua confissão, me deu as costas e se foi, onde até os espaços vazios deixados pela sua partida daquele quarto, me seduziam. Principalmente o seu para sempre enterrado em todo sonho de puta.
raquel p.
O cheiro dos sonhos mortos nos dedos. Os cabelos cor de café. Pernas em meias. Meias palavras. Olhos ansiosos e assidrados. Vida seca lá do nordeste. E com cigarros. Baralho. Barulho. Bregueças. A prostituta canta, traga a música como traga um… A prostituta canta. I can’t get no satisfaction, I can’t get no satisfaction… Se faz toda em imbecilidades de pensamentos, é maça podre, perdição de encontros, psicologia reversa do beijo negado e logo em seguida do beijo roubado. Beijo que queima alma e carne, retrata, retrai. Em becos de canto algum, nas conversas de botecos, na lágrima árdua do travesseiro com penas de faisão. No sul da vida, no sal do chão. E vai, às vaias e vácuo. Dinheiro nos bolsos, na bolsa, nos dedos de outros pela pele. Nas noitadas de rima vazia, reinante, no reino das palavras tolas, cruas e vesgas. Mas ela mal sabe falar. Ela, ela mal sabe cantar… I can’t get no, I can’t get no. É igual a outros tantos, tontos, e tantos. É igual. Do destino mínimo de mínimas oportunidades, e sem culpa, ela vai… Cantando…
‘Cause I try and I try and I try and I try. E não consegue.
" — raquel p.